Reações emocionais após uma situação de crise

Atualizado: Jun 29


Durante uma epidemia, o número de pessoas cuja saúde mental é afetada é enorme, maior até do que o número de pessoas contaminadas pela doença em questão. Experiências de surtos anteriores mostram que as consequências para a saúde mental podem ter maior duração e prevalência que a própria epidemia em si.


Uma situação traumática - individual ou coletiva - pode afetar a maneira como os envolvidos percebem a si mesmos e as coisas ao seu redor, causar insegurança e aumentar o nível de estresse, dentre diversas outras respostas físicas e emocionais. Depois de passar por uma crise ou por um evento traumático, a maioria das pessoas irá atravessar um período de enlutamento para posteriormente se habituar a um "novo normal”.


Luto em tempos de pandemia


Seja através dos meios de comunicação ou por vivências pessoais, no contexto desta pandemia, a morte se tornou uma realidade mais presente para muitos de nós.


Quando perdemos alguém ou algo significativo em nossas vidas, passamos por uma fase de luto. O luto é um processo natural de adaptação a um rompimento de vínculo importante. Durante esta fase é comum que apresentemos reações emocionais, físicas, cognitivas e comportamentais que podem variar de duração. Dentre elas estão:


Sentimentos:

Choque, tristeza, culpa, raiva e hostilidade, solidão, agitação, ansiedade, fadiga, anseio: desejo de estar com a pessoa falecida; desamparo e alívio.


Sensações físicas:

Vazio no estômago, aperto no peito, nó na garganta, hipersensibilidade ao barulho, sensação de despersonalização: “Eu caminho na rua e nada me parece real, inclusive eu”; falta de ar, sentir a respiração curta; fraqueza muscular; falta de energia; boca seca; queixas somáticas; suscetibilidade a doenças, principalmente as doenças ligadas à baixa imunidade, estresse ou falta de cuidados com a saúde.


Cognições:

Descrença; confusão, déficit de memória e concentração; pensamentos obsessivos; sensação da presença; alucinações.


Comportamentos:

Distúrbio de sono; perda/ aumento de apetite; aumento no consumo de psicotrópicos, álcool e fumo; comportamento “aéreo”; isolamento social; evitar coisas que lembrem a pessoa que faleceu; procurar e chamar pela pessoa; sonhos com o falecido; hiperatividade e inquietação.


Em uma pandemia, a experiência de lidar com a morte de forma mais próxima, repentina e inesperada, pode ser preditora de complicações no processo do luto e pode causar transtornos psicológicos. Portanto, este processo de luto, em particular, é permeado por riscos de agravamento de sofrimentos psíquicos tanto individuais como coletivos.


Como ajudar os estudantes que estão vivendo o luto


Professores e gestores podem ter receio sobre como apoiar os estudantes que estejam vivendo o luto. As recomendações a seguir podem servir de referência para que se conduza uma conversa de acolhimento.


- Mantenha o foco no aluno e demonstre interesse. Para que isso aconteça, evite

que a conversa ocorra em áreas com grande circulação de pessoas. Acolha o aluno em uma sala que permita que ele se comunique sem interrupções e com privacidade. Deixe o telefone de lado ao longo da conversa, se for possível.


- Ouça mais, fale menos. Procure fazer comentários breves e perguntas abertas para incentivar o aluno a expor suas experiências, pensamentos e sentimentos.


- Evite tentar "animar" os alunos ou suas famílias de forma superficial. Tentativas

de animar as pessoas trazendo foco somente às coisas boas de suas vidas poderão ser percebidas como falta de interesse em ouvir sobre a dor que estão vivendo. Além disso, esse tipo de postura pode levar a pessoa a se sentir culpada por estar se sentindo triste e por não estar conseguindo valorizar “todas as coisas boas” que o cercam.


- Aceite que o aluno expresse suas emoções, mesmo que elas causem certo

desconforto à você. Tristeza, raiva, egoísmo e confusão psicológica e/ou

comportamental são reações comuns no luto. Vivenciá-las é uma parte importante do processo de elaboração da perda.


- Quando crianças e jovens ouvem que devem “aguentar firme” ou “serem fortes

para suas famílias”, se faz menos provável que expressem seus sentimentos de

tristeza.


- Demonstre empatia. Procure se colocar no lugar de quem sofreu uma perda

significativa, ouvindo de maneira atenta e procurando compreender o que está

sendo transmitido a partir da realidade de quem está se expressando.


- Demonstre compaixão. Procure compreender o estado emocional da outra

pessoa e ter atitudes que possam aliviar ou diminuir o sofrimento alheio.


O que dizer X Comentários a evitar


Comunicar-se com uma pessoa que está vivendo o processo de luto é uma tarefa que demanda sensibilidade e bom-senso. Na prática, o conteúdo da fala frequentemente é menos importante do que sua postura experiente, acolhedora e emocionalmente estável neste momento. Além do mais, mesmo que bem-intencionados, alguns comentários podem não ajudar (em verdade podem até atrapalhar) crianças e famílias que passaram por uma perda significativa. Confira a seguir alguns dos comentários a serem evitados e sugestões de falas mais adequadas.


A pandemia gerou diversos tipos de perdas e, por consequência, estamos convivendo com formas diferentes de luto. Por um lado, nos deparamos com mortes reais levando a um luto literal, como viemos discutindo até então neste material. Porém, por outro, sofremos outros tipos de perda frente a diversos eventos da vida, possibilidades e situações que não puderam ser vividas ou que foram interrompidas. Casamentos que deixaram de acontecer, a viagem que teve que ser deixada para o futuro, a festa de formatura que terá que ser reformulada e a simples possibilidade de sair de casa, que não pode acontecer por um tempo… Nesses casos, o luto é simbólico, também gerando sua parcela de desconforto.


Nossas reações a momentos de crise dependem de diversos fatores, tais como a gravidade do evento, nossas experiências com situações complicadas anteriores, traços da personalidade, recursos para lidar com problemas que desenvolvemos ao longo da vida e do apoio que recebemos ao longo desse período. Estudos indicam que medidas de isolamento social recomendadas para conter a pandemia também podem acarretar

efeitos negativos à saúde mental como ansiedade, confusão e raiva. Tais condições podem evoluir para transtornos mentais, como o estresse pós traumático, por exemplo.


O que é estresse pós-traumático?


Transtorno de Estresse Pós-Traumático é um transtorno mental desencadeado:


01. Pela vivência de uma ameaça real de morte ou de ferimentos graves para si ou para outra pessoa.


02. Ao se ter conhecimento de um evento em que um parente ou amigo próximo quase ou realmente sofreu uma morte violenta ou acidental.


03. Ao se passar por uma exposição repetida a detalhes angustiantes de uma situação grave e traumática.


Após a vivência do episódio, as pessoas acometidas por esse transtorno podem apresentar:


- Memórias recorrentes, involuntárias e angustiantes da situação traumática. Pesadelos sobre o evento e/ou a sensação de que o evento está acontecendo de novo;


- Esforço para tentar evitar pensamentos, sentimentos ou qualquer coisa (locais,

atividades ou pessoas que estavam presentes) que esteja associada ao trauma;


- Redução de interesse em atividades antes consideradas prazerosas;


- Sensação de distanciamento em relação a outras pessoas;


- Avaliações negativas persistentes e exageradas sobre si mesmo, os outros ou o

mundo;


- Dificuldade para dormir;


- Irritabilidade, comportamento autodestrutivo;


- Dificuldade em concentrar-se;


- Reações abruptas, como se a pessoa estivesse “de guarda”.


Esse quadro psiquiátrico, que só pode ser diagnosticado por um profissional da área da saúde mental, deve durar, no mínimo, 1 mês para ser considerado.


Em nível individual, o medo de perder alguém ou de ser infectado por um vírus potencialmente fatal e de rápido contágio como o novo coronavírus, pode trazer impactos emocionais que poderão ser percebidos na volta às aulas presenciais via aumento do estresse, dificuldades de concentração, agressividade e transtornos mentais como o já citado Transtorno do Estresse Pós-Traumático e do Transtorno Depressivo. Além disso, é importante atentar-se aos sinais de risco de suicídio em casos mais delicados.


Prevenção de suicídio e o contexto da pandemia


Práticas e políticas públicas voltadas à prevenção de suicídio são de extrema importância nesse momento.


Para saber mais sobre o tema, acesse o material Suicídio na pandemia COVID-19, elaborado pela Fundação Oswaldo Cruz.


O Centro de Valorização da Vida (CVV) presta serviço voluntário e gratuito de apoio emocional e prevenção do suicídio para todas as pessoas que queiram e precisem conversar, sob total sigilo e anonimato.


O Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção ao suicídio disponibiliza gratuitamente em seu site diversas cartilhas e manuais sobre suicídio.


Suicídio é um tema sério: caso precise de ajuda ou esteja preocupado com alguém, busque assistência psicológica e/ou psiquiátrica imediatamente.


Em nível coletivo, a convivência escolar poderá ser afetada pelo aumento de conflitos entre os estudantes e pelo aumento de comportamentos agressivos entre os mesmos. É importante destacar que os impactos de tais efeitos psicológicos variam de acordo com o contexto e com as situações vividas por cada um ao longo do isolamento social.


Além dos professores, gestores escolares estarão na linha de frente de acolhimento aos alunos na volta às aulas presenciais. No novo cenário da COVID-19, o ideal seria que tais profissionais pudessem contar com o apoio de políticas públicas de saúde mental e com equipes multidisciplinares compostas por psiquiatras, psicólogos, terapeutas ocupacionais - e de outras áreas da saúde - para orientação e encaminhamento de alunos que necessitem de maiores cuidados. Como nem sempre essa realidade é possível, confira algumas recomendações que podem auxiliar os gestores escolares no apoio à estabilidade emocional e na retomada da rotina escolar dos professores e estudantes neste momento tão delicado.


Há uma frase muito difundida nas redes sociais que se aplica bem a esta necessidade: cuidar de quem cuida.


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