Pertencimento na adolescência e o papel da escola

A adolescência é uma fase marcada pela necessidade de se afirmar enquanto indivíduo versus a necessidade de pertencer. Por isso, os jovens sempre buscam seus grupos para ter acolhimento e aceitação. No entanto, essa convivência muitas vezes se choca com a individualidade, gerando agressividade ou preconceito. Esses comportamentos, popularmente chamados de rebeldia adolescente, são comuns e fazem parte do desafio de pais e professores na hora de lidar com esses jovens.


Boa parte da adolescência se passa no período escolar. Por essa razão, a escola exerce papel fundamental, seja na formação ou na orientação do jovem. Compreender seus comportamentos ajuda a amenizar o conflito entre o julgamento e o acolhimento, tornando a escola um espaço de maior diversidade e liberdade. Trabalhar o diálogo com os adolescentes também é essencial para a promoção da saúde mental. Afinal, é nesta fase que problemas como o bullying costumam causar impactos mais graves.


Pertencimento na adolescência

Entrar em um grupo faz parte da transição entre a infância e a vida adulta. Este movimento é uma consequência da elaboração de identidade. Durante a puberdade, o adolescente busca outras referências fora da família para se formar enquanto indivíduo. Por esse motivo, os amigos ganham mais importância, afinal é no círculo de amizades que o jovem se identifica, experimenta papéis sociais e busca acolhimento para enfrentar as suas inseguranças.


Na adolescência os códigos coletivos têm um peso grande, já que eles sinalizam esse pertencimento e abrem espaço para a construção de laços emocionais, tão importantes nessa fase. Não é à toa que os grupos de adolescentes nos corredores das escolas se comportam da mesma maneira: eles se vestem, falam e agem igual para se identificarem mutuamente e assim ter a sensação de pertencimento.


Bullying e o pertencimento entre os jovens

Mesmo se tratando de um tema relativamente atual, o bullying já é estudado desde a década de 70. Foi o Doutor Dan Olweus, professor de psicologia do Centro de Pesquisa de Promoção da Saúde (HEMIL) da Universidade de Bergen, na Noruega, o primeiro a pesquisar sobre o assunto. Apesar de ter promovido diversos estudos sobre bullying, seu livro mais famoso é Bullying na escola: o que sabemos e o que podemos fazer, publicado em 1993. Traduzido para mais de 15 idiomas, trata-se de uma boa referência para educadores que querem se aprofundar na questão do bullying e elaborar ações e práticas dentro do ambiente escolar.


Segundo a definição do professor Olweus, o bullying é “um comportamento repetitivo, negativo e mal-intencionado de um ou mais alunos direcionado contra um outro aluno que tem dificuldade de se defender. A maioria dos casos de bullying ocorre sem a provocação por parte do aluno vulnerável”. Na adolescência, o bullying surge justamente em razão do conflito de pertencer versus se afirmar enquanto indivíduo. A necessidade de acolhimento em contraste com a necessidade de formar sua própria identidade acaba gerando conflitos, que são exteriorizados por meio da agressividade e do preconceito contra aquele que não faz parte do grupo ou não aceita as condutas sociais ditadas por ele.


Quando não trabalhado bem no ambiente escolar, o bullying pode provocar danos graves para a saúde mental do jovem vulnerável e consequências para o resto de sua vida. Sabemos que o bullying não é uma novidade nas escolas, mas, hoje, crianças e adolescentes encaram uma realidade completamente diferente daquela vivenciada pelos próprios professores quando jovens. As redes sociais atuam como ferramentas de conexão, mas, elas também podem ser usadas para agredir verbalmente, expor um indivíduo e gerar uma série de constrangimentos com proporções que vão muito além dos muros escolares. O chamado cyberbullying é uma questão bastante séria e está relacionado com inúmeros casos de suicídio entre jovens e ações extremas de violência. Segundo uma pesquisa realizada pelo Serviço Secreto Americano, em 2019, casos envolvendo adolescentes que atiraram contra colegas e professores em escolas estão diretamente ligados ao bullying.


Transformando o ambiente escolar

Como resultado de suas pesquisas, o professor Olweus ainda publicou o Programa de Prevenção ao Bullying Olweus, que foi criado para prevenir o bullying nos diversos níveis de ensino. O programa é baseado em quatro pilares: estimular gentileza, interesse positivo e envolvimento de adultos; impor limites firmes para comportamentos inaceitáveis; aplicar de forma consistente sanções não-punitivas e não-físicas para comportamentos inaceitáveis e violação das regras; e, incentivar a postura dos adultos como autoridades e exemplos positivos.


A escola também pode estruturar uma série de iniciativas para prevenir o bullying, como rodas de conversa e campanhas sobre o tema. Abrir espaço para o diálogo entre alunos e professores, bem como, envolver pais ou responsáveis é essencial para transformar o ambiente escolar em um espaço de maior acolhimento e liberdade.


Outras ações que podem favorecer o pertencimento e minimizar os conflitos são os eventos de artes e de ciências. Os festivais de artes e feiras de ciências costumam marcar positivamente a adolescência, pois permitem que os alunos se expressem com mais liberdade, espontaneidade e criatividade, mostrando seus talentos e sua visão de mundo.


Os desafios de lidar com as questões dos jovens e o problema do bullying não são pequenos, por isso não devem ser menosprezados pelos educadores. É preciso envolver toda a comunidade escolar em ações que desestimulem os conflitos e proporcionem um ambiente mais acolhedor e mais leve.

Pertencimento na escola e lidar com o bullying no ambiente educacional é fundamental para a saúde mental. Veja também como transformar o espaço da escola em um local que promove a saúde mental para todos.

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