Nós já sabemos que assim como cuidamos do corpo, precisamos também cuidar da nossa saúde mental. Idosos, adultos, jovens e crianças, todos nós devemos trabalhar de forma ativa na promoção da saúde da nossa mente e na prevenção dos transtornos mentais. Sabendo disso, nós preparamos esse material para ajudar vocês, pais e responsáveis, na hora de cuidar da saúde mental das crianças e adolescentes. Vem com a gente?

Qual a importância dos adultos prestarem atenção nos sinais que indicam problemas de saúde mental em crianças e adolescentes?

Hoje, sabemos que os transtornos mentais não acontecem “do nada”. Pelo contrário, eles tendem a surgir de forma gradual, desde muito cedo. Ao prestar atenção nesses  sinais, pais e cuidadores podem detectar os problemas em uma fase em que eles ainda são leves e menos frequentes na vida da criança ou do adolescente, permitindo, assim, a tomada de cuidados que geralmente são de baixa complexidade e com melhor  resultado. 
Um aspecto importante é que este tipo de intervenção baseada na identificação precoce nos permite que façamos melhor uso da rede de apoio de especialistas vinculada de alguma forma à saúde mental, já que, quando temos este olhar preventivo, o papel de terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogas, psicopedagogas, entre outros, tende a ser mais valorizado.

Quais são os principais sinais que indicam que crianças e adolescentes estão passando por algum tipo de problema de saúde mental? 

Geralmente, crianças e adolescentes que estão em uma zona de risco para desenvolver um transtorno mental apresentam emoções, pensamentos e comportamentos associados a prejuízos ao dia a dia. Um exemplo é quando eles apresentam grande dificuldade de interação social, seja por falta de motivação ou por dificuldade em gerenciar as habilidades cognitivas e emocionais, necessárias para que isso aconteça. Outros exemplos são a queda de engajamento em atividades escolares ou outras atividades de lazer. 
Outro aspecto importante de ser notado são as alterações no padrão de ânimo, sono e apetite, que geralmente acompanham quadros de transtorno mental. Muitas vezes estas condições levam o jovem a demonstrar mudanças de comportamento, como o distanciamento dos amigos e o surgimento de padrões de pensamento mais angustiantes. 
Muitas vezes estes sinais são abruptos, mas às vezes eles são graduais e sutis, demandando atenção. Porém, é importante que se leve em consideração de que tais prejuízos não são passageiros. Pelo contrário, eles tendem a persistir.

Geralmente, como as crianças e adolescentes lidam com os problemas de saúde mental? 

Na trajetória de um transtorno mental é comum que crianças e adolescentes não apresentem os recursos necessários para conseguir compreender o que está se passando, gerenciar o sofrimento ou buscar ajuda. Quando não conseguem expressar o que está ocorrendo e não recebem auxílio, eles podem passar a apresentar condutas mais impulsivas, o que vem a gerar, um agravamento do caso. Muitas vezes, nessas situações, pode ocorrer uma desconexão com a  família, o que representa um risco muito grande. Com o passar do tempo, a sensação de que nada vá mudar pode levar a comportamentos mais graves como a automutilação associada à intenção suicida e outros tipos de comportamento suicida.

Como não confundir um transtorno mental com um comportamento comum da adolescência/juventude?

Como os transtornos mentais tendem a surgir de forma gradual, é bastante comum que haja uma certa dificuldade em se diferenciar um comportamento “de adolescente” de um problema de ordem psicológica/psiquiátrica.
Alguns aspectos que podem auxiliar no caso de suspeita de que algo está errado são as mudanças notáveis de comportamento, o surgimento de angústia que não desaparece e pensamentos excessivamente negativos que se mantém de forma desproporcional ao que o jovem está vivendo. 
Neste sentido, é importante saber que eventos complicados como a perda de um ente querido, uma reprovação escolar ou o fim de um relacionamento amoroso tendem a ocasionar um certo grau de tristeza e ansiedade, mas na maioria dos casos esses sentimentos se resolvem em certo período de tempo. Além disso, alterações importantes de peso sem explicação clara, insônia ou excesso de sono e redução significativa da energia que se tinha também são sinais de alerta.
Na dúvida, buscar informação é fundamental, e novamente lembramos que o papel do psicólogo como uma figura que faz a “triagem” entre casos que necessitam de atendimento especializado ou não, é chave.

Quais os principais problemas de saúde mental que atingem crianças? 

De forma geral, os transtornos mentais aumentam com o passar dos anos, ou seja, são menos frequentes na infância e vão se tornando mais frequentes na adolescência. Na infância, os transtornos de comportamento, como o Transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, o Transtorno Desafiador opositivo e o Transtorno de conduta são os mais detectados. 
O transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) é um quadro caracterizado por um padrão de comportamento de muita energia (que se mantém ao longo do tempo e que não modifica de um ambiente para outro) e que leva a criança a se expor a muitas situações de atrito com as pessoas que estão à sua volta. 
Ainda, no TDAH, é comum que a criança demonstre um grau excessivo de impulsividade (presente em comportamentos como não conseguir aguardar numa fila ou interromper conversas repetidas vezes, por exemplo) e dificuldade no controle da atenção, que se apresenta de diversas formas, como dificuldade em sustentar o foco em atividades, distração muito fácil, problemas com organização e planejamento, entre outros.
O transtorno de conduta, por sua vez, se caracteriza por um padrão de comportamento em que a criança tende a apresentar condutas menos empáticas e sem demonstrar culpa, causando dano às coisas que estão à sua volta, realizando furtos, contando mentiras com muita frequência e demonstrando agressividade e/ou egoísmo.
Já o transtorno desafiador opositivo está associado a um padrão de humor irritável, levando a um comportamento hostil, argumentativo e desafiador, frequentemente com postura vingativa.
Em todos esses casos é necessário que exista um padrão comportamental que se sustente ao longo do tempo e que ocasione algum tipo de prejuízo (dificuldade de fazer ou manter amizades, baixo rendimento na escola, sofrimento pessoal, etc.) para que um diagnóstico seja cogitado.

Quais os principais problemas de saúde mental que afetam os adolescentes? 

Já, na adolescência, existe um aumento dos casos de depressão e ansiedade. Os transtornos de ansiedade são caracterizados por um estado de alerta aumentado que leva a pessoa a apresentar preocupações e medos desproporcionais, mais frequentes e intensos, em relação à uma série de coisas. Assim, o adolescente pode passar a demonstrar insegurança e indecisão excessiva, grande desconforto ou também evitar diversas situações (principalmente às quais não está acostumado) e, em alguns casos, crises, como a crise de pânico.
Já, a depressão está associada à tristeza, desânimo físico e mental intensos e duradouros, e à redução na capacidade de se sentir prazer. A depressão leva a o adolescente a ter percepções negativas sobre si e as coisas ao redor causando baixa autoestima, muita sensibilidade a frustrações, isolamento social, pessimismo, alteração nos padrões de sono e apetite e pode estar ligada a pensamentos de morte. É importante citar que, na adolescência, muitas vezes esses sentimentos são expressos por irritabilidade, o que causa uma certa confusão por parte dos responsáveis.

Ao notar esses sinais, o que os pais e cuidadores devem fazer? 

Ao suspeitar de que a criança ou o adolescente vêm apresentando sentimentos, pensamentos ou comportamentos associados a sofrimento ou prejuízos contínuos, a primeira coisa a ser feita é dar acolhimento e, em seguida, buscar por apoio. 
Em muitos casos, os pais ou responsáveis demoram para buscar ajuda, pois acreditam que os problemas irão desaparecer, mesmo que já venham durando há muito tempo. Além disso, ainda vivemos em uma sociedade que não compreende plenamente que os transtornos mentais estão relacionados ao funcionamento do cérebro, assim não dependem apenas da força de vontade da pessoa para que ela melhore. Outro  aspecto que leva pais e cuidadores a levarem mais tempo para buscar ajuda é quando eles se sentem culpados pelos problemas do jovem. 
Procurar informação é fundamental, e, em casos de suspeita mais forte ou dúvida, o papel do psicólogo como uma figura que faz a “triagem” entre casos que necessitam de atendimento especializado ou não, é chave.

Quais são as consequências que crianças e adolescentes podem sofrer caso não recebam o apoio adequado frente a esses problemas? 

Estudos vêm demonstrando que, ao não buscarmos auxílio, os riscos de desdobramentos negativos são muito grandes: problemas físicos como maior ocorrência de certas doenças, sedentarismo e insônia são alguns exemplos. Também podem ocorrer baixo rendimento e até evasão escolar, maior envolvimento em atividades de risco, deterioração do clima familiar e sofrimento que pode chegar a níveis de desesperança tão significativos que pode associar-se a comportamentos suicidas.